sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Não dorme

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Amor, não dorme. É que na calmaria do seu sono reside minha angústia. É que depois de contar todas as sardas das suas costas, todos os pelos do seu peito e todas as suas tatuagens, tô quase indo embora. 

O vento que bate na janela e balança a cortina sempre me pede baixinho para ficar. É nesse frio que me demoro mais cinco minutos no calor do teu abraço por baixo do edredom. Me demoro só mais hoje. 

Por favor, não dorme. São nesses momentos de quietude que me pergunto que é que tô fazendo da minha vida. Que é que tô te deixando fazer da sua. É quando faço um carinho bobo no ruivo da sua barba, quando me espremo no cantinho do sofá só pra te deixar mais confortável. É aí que decido ficar só mais um pouco. Quando você fecha os olhos, abro a mente. E me pergunto onde é que foi parar aquela menina com a agenda cheia de baladas e o coração vazio de afeto. Às vezes até sinto saudade de mim. E levanto atordoada, calço os sapatos e pego as chaves. Depois desmorono no degrau entre a cozinha e a lavanderia e choro. Um choro baixinho, doído, insuportável por quase não ter motivo pra existir. 

Você me faz feliz. E tudo isso é só minha forma de fugir do que realmente importa, das relações verdadeiras. Então, se eu puder te pedir só uma coisa, não dorme. É que no seu ronco alto e disforme que lembro do meu medo. Não de estar com você, mas de ter que relembrar como era não estar com você. 

Acorda. Pra vida. Não dorme.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

O que você precisa saber

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Você precisa saber do meu medo de ficar sozinha pela vida. Você precisa entender, meu bem, que os outros quase amores que passaram por mim marcaram demais. Precisa compreender meu medo de ter alguém por perto.

Você pode me abraçar mais forte quando eu estiver brava. Mesmo se eu espernear, eu juro que o coração vai esquentar um pouquinho. Pode me levar pro role dos seus amigos que eu vou entender sua vontade de me ter perto, mesmo com cara de cansada, de final de dia.

Muita gente já passou por mim, sabe? Muita gente já deixou cicatriz feia, ainda tem ferida aberta, exposta, que eu teimo em cutucar de vez em nunca. Mas amor, amor mesmo, eu senti pouco. Ah, isso é muito importante que você saiba: eu fujo. Assim, do nada, pelo medo de deixar qualquer pedacinho meu com outra pessoa.

Eu gosto sim de mensagens de bom dia e abraços de boa noite. Eu sinto sim vontade de ligar na hora do almoço só pra ouvir uma voz acolhedora que me anime o dia. Eu quero sim passeios no parque nos domingos nublados e o conforto do ar condicionado do cinema quando tá muito calor. 

Então, meu bem, se você pretende ficar por perto, cuida de mim. Não muito, eu sei me virar. Mas fica por perto, me deixa cair com a certeza de que vai ter alguém lá embaixo pra me esperar. Que você vai estar lá.

Entende que minha manha não é só manha, que minhas birras são só um modo meio bobo de te fazer sentar mais perto, segurar mais forte minha mão. Presta atenção no meu olhar, no arqueado da minha sobrancelha quando tô sendo irônica, quando tô brava. Me respeita, mas não me obedece o tempo inteiro não. Não me deixa ser tua dona, diz que só quer que eu te complete. 

E não mente, por favor. Pode falar que reparou na bunda da menina nova da sua sala, que bebeu demais e não lembra de nada que aconteceu no final de semana passado. Que vai sair com os amigos em vez de ficar em casa vendo tv.

Por último, mas jamais menos importante, vive tua vida e me deixa viver a minha. Só vive comigo, convive comigo.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Sobre você

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Você disse que eu era uma pessoa maravilhosa e que tudo o que fomos não se perderia na vida. E se despediu. E eu chorei, só pra variar. Acho que nunca te contei, mas eu sou muito chorona. Mesmo. Canceriana, né?

Aí você me pede pra não ficar triste com você e tudo que eu consigo fazer é odiar cada parte minha que não consegue te deixar ir embora. Que é que você tem de tão especial, hen? E então te ofereço ajuda como recompensa por todos os sonhos tranquilos que você fez com que eu tivesse, todas as manhãs felizes que você me proporcionou. E pensei em falar sobre companheirismo e reciprocidade. Na energia boa que eu sinto quando você segura minha mão. Em como seu sorriso acelera meu coração e como as cores dos seus olhos me devoram aos pouquinhos, me despem de qualquer máscara que eu possa usar pra enganar o resto do mundo. Eu não engano você.

Você me trás paz e mesmo todo mundo sempre repetindo o discurso de que não podemos deixar nossa felicidade na mão de ninguém, você meio que é responsável pela minha. E eu admiro tanto você. Admiro você adulto, homem sério de terno e gravata. Mas te olho tão menino, tão descalço, com tantas cores e tamanho brilho que eu jamais conseguirei me acostumar. Você, com essa manha toda de menino do interior, sabe que pode conquistar o mundo. Mas você tem medo de encarar todo esse seu dom de ser quem você quiser. E eu te entendo. 

Quase todos os meus amigos já perceberam que tem alguma coisa diferente em mim. O cabelo. A pele. O sorriso. Não sei, não sabem, mas dizem que estou bem melhor. E você, justo você, não consegue perceber essa mudança. Porque você me conheceu encantada, me conheceu tentando ser uma pessoa melhor pra ser a pessoa certa pra você. 

Você me diz que tem medo de me querer. E eu só quero te socar até as larvas que tem no seu coração vivarem borboletas no seu estômago. Mas você se afasta. E aí eu me afasto. E a gente fica nessa coisa de se gostar, mas não se admitir. Não se assumir. E eu saio com outras pessoas, sorrio para outros rostos, elogio outros sotaques. Tudo só pra tentar me livrar de você. E nunca consigo. E penso que talvez seja amor. E fico com vontade de ligar, de gritar, de correr. E sumo. E torço contra, mas acabo projetando o nosso fim. 

terça-feira, 1 de abril de 2014

Primeiro de abril

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E eu nem gosto tanto assim de você.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Permita-se

Um comentário:
Fotografia: Amanda Nakao

Outro dia eu estava bem triste. Dessas tristezas que doem tanto que o coração até amortece. Reclamei com minha mãe, minhas gatas, minhas amigas. Reclamei com o moço da cantina da faculdade. Com meu diário, meu travesseiro, meu espelho. Até que, do nada, uma amiga me perguntou o que eu estava fazendo pra mudar. O coração saiu do modo automático e o mundo, que estava em preto e branco, ganhou tons pastéis.

Vejam bem, eu odeio tons pastéis. Acho sem graça, sem sal, morno. Mas ali, naquele momento, fazia todo o sentido. Minha vida, que antes estava tão fria, emorneceu. E eu caí em mim. E sorri. Sorri demorado, sincero. Sorri porque tudo estava uma grande merda, mas eu tinha tomado consciência de que precisava mudar.

Permita-se. O sol vai nascer todos os dias, mas às vezes a gente não vai poder ver. Permita-se aproveitar os dias nublados tanto quanto a criança aproveita os sábados de sol. Permita-se ser um pouco triste, porque depois da tempestade sempre vem o raio de sol. Permita-se ser você mesmo, mesmo que incomode demais. A gente não tem culpa pelo que é, mas tem total culpa pelo que não tentou ser. Permita-se chorar, seja de felicidade ou tristeza. Permita-se sorrir com todos os dentes, com todo o coração. Permita-se ser gigante, ser livre, ser infinito. Permita-se ser intenso, ser sincero, ser confuso. 

É que às vezes, quando a gente está míope, precisamos de um bom amigo pra nos ajudar a enxergar, mas ninguém nunca vai poder fazer isso pela gente.